Entrevista com Maria de Fátima Morethy Couto: trajetória acadêmica e novos percursos

Maria de Fátima Morethy Couto retoma sua trajetória acadêmica, detalha o percurso que a levou ao desenvolvimento das linhas de pesquisa atuais e explica os próximos passos de seus projetos.
Professora Titular da Universidade Estadual de Campinas, Maria de Fátima Morethy Couto é membro do Comitê Brasileiro de História da Arte (CBHA), do qual foi presidente (gestão 2010-2013), e líder dos grupos de pesquisa “Modos” e “Geopolíticas Institucionais: arte em disputa a partir do pós-guerra”. Na entrevista a seguir, ela retoma sua trajetória acadêmica – do mestrado em História pela Unicamp (1994) ao estágio de pós-doutorado na University of the Arts London (UAL) e à experiência como pesquisadora no Institut nationale de l’histoire de l’art, em Paris – e também detalha o percurso que a levou ao desenvolvimento da pesquisa “A França e o Reino Unido no tabuleiro geopolítico das artes (1948-1978) e a organização de mostras circulantes no Brasil e na América do Sul”.
Trajetória
Em que momento da sua trajetória o interesse pela geopolítica das artes passou a ocupar um lugar central? Seu doutorado na França contribuiu para esse olhar sobre a circulação internacional da arte e a diplomacia cultural?
Sim, de certo modo. Em meu doutorado, discuti a trajetória artística do pintor cearense Antonio Bandeira (1922-1967) que viveu em Paris grande parte de sua vida e ali faleceu, aos 45 anos, durante uma cirurgia. Descobri, com a pesquisa desenvolvida na França, que muito do que se escrevia, no Brasil, sobre o sucesso de Bandeira na Europa era exagerado, o que não quer dizer que sua obra seja menor ou sem interesse para a história da arte brasileira. Busquei recuperar sua fortuna crítica e, para tanto, mapeei as exposições individuais e coletivas das quais ele participou e também analisei a recepção de seu trabalho no Brasil, em suas idas e vindas entre os dois países.
Foi a partir dessa pesquisa que sua atenção se voltou para as questões geopolíticas?
Questões geopolíticas se fizeram presentes em meu estudo, evidentemente, mas não as explorei profundamente. Já entre 2014 e 2015, realizei um estágio de pós-doutorado no Chelsea College of Arts, da University of the Arts London (UAL), com auxílio da Fapesp, e esse estágio foi acrescido de dois meses em Paris, onde fui pesquisadora convidada do Institut nationale de l’histoire de l’art (INHA). Meu interesse era chamar a atenção para uma rede de artistas, marchands e críticos da Europa e da América do Sul que possibilitou que, entre a década de 1950 e o início dos anos 1970, Paris e Londres acolhessem e incentivassem uma determinada vertente da arte de vanguarda sul-americana. Estudei a recepção europeia do trabalho de cinco artistas sul-americanos atuantes em Paris e Londres – Lygia Clark, Hélio Oiticica, Sergio Camargo, Jesús Rafael Soto e Julio Le Parc – cujas práticas artísticas foram associadas ao cinetismo, analisando a circulação e o impacto que eles tiveram no cenário artístico europeu, além do papel de agentes culturais que atuaram como seus interlocutores. Em seguida, com auxílio do CNPq (bolsa Produtividade), passei a analisar as bienais de arte realizadas na América Latina entre os anos 1950-1970, examinando não apenas os efeitos da circulação de artistas, historiadores e críticos de arte nesses eventos como também as premiações concedidas e algumas das obras apresentadas.
Foram essas pesquisas citadas que me levaram a analisar de modo mais fino questões relacionadas à diplomacia cultural e a interesses geopolíticos nas artes.

Eric Newton, membro do júri de premiação, na Sala da Grã-Bretanha, I Bienal de São Paulo. Ao fundo obras de Lucien Freud, Girl with Roses e Prunella Clough, Greenhouse in Winter. © Peter Scheier
E é uma pesquisa que ainda segue em curso, certo?
Sim, pretendo recuperar algumas das polêmicas que cercaram esses eventos, provocadas por questões diversas, desde interesses corporativos até o escândalo causado por certas propostas artísticas ou por determinadas premiações e aquisições. Outros dados importantes a serem estudados, em termos de movimentação do circuito artístico local/regional, são as exposições e as conferências e debates que ocorriam paralelamente às bienais, bem como os eventos de caráter contestatório, promovidos por alguns artistas, chamados de anti-bienais.
França e Reino Unido: diplomacia cultural
O projeto “A França e o Reino Unido no tabuleiro geopolítico das artes (1948-1978) e a organização de mostras circulantes no Brasil e na América do Sul” investiga dois países com longa tradição de diplomacia cultural. Por que França e Reino Unido são casos particularmente relevantes para compreender esse cenário?
Minha familiaridade com o sistema artístico francês e britânico no pós-guerra, por conta do meu doutorado em Paris, e do pós-doutorado em Londres, levou-me a escolher esses dois países, concentrando-me sobretudo nas representações nacionais da França e da Grã-Bretanha que circularam nas Bienais de Veneza e de São Paulo no recorte temporal do projeto. Nessa primeira fase da pesquisa, concentrei-me em levantar documentação sobre a Grã-Bretanha, inclusive realizando um estágio de pesquisa de três meses em Londres, com apoio da Fapesp. De outubro a dezembro de 2026, permanecerei em Paris, como pesquisadora convidada do DEA Programme | In residence at Maison Suger para investigação sobre o tema, tendo como interesse maior as ações da Association française d’action artistique (AFAA), responsável, durante vários anos, pela seleção das representações de artistas franceses para as grandes exposições internacionais de arte de caráter sazonal. A relevância da França no circuito europeu das artes durante o século XX é indiscutível e o intenso trânsito de artistas brasileiros em Paris já foi bastante estudado por vários pesquisadores. Em minha pesquisa sobre as bienais de arte realizadas na América Latina, também discuto a circulação de artistas e de críticos de arte franceses na região e o destaque recebido pelo país, com várias e distintas premiações.
O caso da Grã-Bretanha é um pouco distinto pois o país entrou na disputa pelo soft power tardiamente, em comparação com outras nações europeias hegemônicas. O British Council, órgão responsável em promover, por meio de ações culturais e educacionais, a imagem do país no exterior, só foi criado em 1934. Todavia, o impacto das ações e estratégias estabelecidas pelo British Council para a divulgação da arte britânica no exterior nos circuitos artísticos internacionais foi uma surpresa para mim.
Há um dado que merece ser assinalado. Durante o período que estudo, o Departamento de Artes Visuais do British Council foi dirigido pela mesma funcionária, Lilian Somerville, e isso deu grande estabilidade aos planos do Departamento, que planejava suas ações de modo bastante articulado, juntamente com um comitê consultivo, formado por personalidades de destaque no mundo da arte britânico, como Alan Bowness, Anthony Blunt, Clive Bell, Herbert Read, Nikolaus Pevsner, Philip Hendy e Roland Penrose.
Cabe registar que São Paulo oferecia uma oportunidade única de promoção da arte britânica na América Latina e a Grã-Bretanha soube tirar grande proveito de suas participações. Henry Moore ganhou o prêmio de melhor escultor estrangeiro em 1953; Ben Nicholson, o de melhor pintor estrangeiro em 1957; Barbara Hepworth conquistou o Grande Prêmio, pelo conjunto de sua obra, em 1959; Alan Davie foi escolhido o melhor pintor estrangeiro em 1963; e Richard Smith ganhou o Prêmio Itamaraty, em 1967, edição em que o sistema de premiações foi modificado. Na realidade, nas dez primeiras edições da Bienal de São Paulo (1951-1969) sempre houve um artista britânico premiado.

Victor Brecheret na Sala da Grã-Bretanha, I Bienal de São Paulo © Autor desconhecido | Arquivo Histórico Wanda Svevo – Fundação Bienal de São Paulo.
Qual era a importância estratégica do Brasil nas políticas culturais da França e do Reino Unido? E que aspectos dessa história ainda permanecem pouco explorados pela historiografia brasileira?
Acho que aqui precisamos ter cautela e pensar que o Brasil não é visto de modo isolado, embora seja um país de grande visibilidade e relevância internacional. A América do Sul representava, no pós-guerra, um continente a ser (re)explorado, por questões comerciais e de mercado, mas também políticas. As ações de soft power estabelecidas por várias nações europeias visavam moldar as preferências e interesses alheios, conforme os seus objetivos. Em última análise, buscavam criar ou fortalecer associações e acordos internacionais de diferentes naturezas com vários países da região, entre eles o Brasil.
No caso da França, a influência em países da América do Sul é notória e vem de longa data, ancorada na larga experiência colonial, na utilização da língua francesa pela elite econômica das nações americanas e também na sistemática divulgação da cultura francesa no exterior. Desde meados do século XIX, Paris consolidara-se como uma metrópole artística, atraindo milhares de artistas estrangeiros, que buscavam reconhecimento internacional para seu trabalho. As ações de soft power contavam com o apoio dos Institutos Franceses e das Alianças Francesas e os liceus franceses de ensino, espalhados pelo mundo, mas também com as diretrizes elaboradas pelo Institut Français em Paris. Eram medidas bastante tentaculares e que envolviam diferentes agentes e instituições pautados pela ideia de universalidade da cultura francesa, que sabemos não ser verdadeira.
Já a criação do British Council, em 1934, para enfrentar, a curto prazo, a propaganda hostil à influência britânica, e, a longo prazo, formar, por meio de atividades culturais e de ensino, correntes de opinião favoráveis à Grã-Bretanha, é um exemplo da preocupação do país em consolidar sua imagem no exterior, mesmo que tardiamente em comparação com outras nações hegemônicas da Europa. O British Council passou a agir na América Latina desde 1935. Em 1941, estabeleceu escritório no Rio de Janeiro, como um dos elos da campanha de propaganda contra o nazifascismo, mas foi em 1945, por decreto assinado pelo presidente Getúlio Vargas, que o órgão iniciou oficialmente suas atividades no Brasil. Nos anos 1950, o British Council impulsionou a cooperação científica e cultural entre o Brasil e o Reino Unido por meio da concessão de bolsas de estudos, em diferentes áreas do conhecimento, ou por convites para que brasileiros pudessem conhecer instituições britânicas. Devo mencionar aqui a importância de uma publicação recente, de 2023, sobre as ações culturais do British Council. Trata-se de Art without frontiers. The story of the British Council, visual arts, and a changing world, de Annebella Pollen, que aborda de modo abrangente a atuação do órgão no campo das artes visuais, analisando-a por décadas.

Sala da Representação Britânica na V Bienal de São Paulo, com obras de Barbara Hepworth e Francis Bacon. © Autor desconhecido | Arquivo Histórico Wanda Svevo – Fundação Bienal de São Paulo.
A pesquisa destaca o papel das exposições itinerantes como instrumentos de diplomacia cultural. Há alguma mostra que tenha sido particularmente importante no Brasil?
Eu destacaria, no âmbito de nosso projeto, com relação direta com a minha pesquisa, a intensa circulação das representações nacionais da Grã-Bretanha na Bienal de São Paulo no Brasil e na América Latina. Darei o exemplo de uma itinerância, que estudei com maior atenção. Em 1958, a sede definitiva do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no Aterro do Flamengo, foi inaugurada com uma mostra de pinturas e desenhos de Ben Nicholson e trabalhos de dez jovens escultores britânicos (Robert Adams, Kenneth Armitage, Reg Butler, Lynn Chadwick, F. E. McWilliam, Bernard Meadows, Eduardo Paolozzi, Leslie Thornton, William Turnbull e Austin Wright), organizada pelo British Council. A exposição consistia na reapresentação dos trabalhos da delegação da Grã-Bretanha exibidos na IV Bienal de São Paulo (1957), que teve Philip Hendy, diretor da National Gallery de Londres, como comissário. Na ocasião, Ben Nicholson conquistou o prêmio de melhor pintor estrangeiro e Austin Wright recebeu um prêmio-aquisição para sua obra “Argument”, que hoje se encontra no acervo do MAC USP.
A mostra de artistas britânicos se associava, portanto, a um momento especial na história do museu, o de sua mudança para o prédio projetado por Affonso Eduardo Reidy. Embora fosse uma inauguração parcial da nova sede, pois somente o Bloco Escola ficara pronto, o tom da inauguração era de celebração e de vitória, pois “um gigantesco organismo começava a caminhar por seus próprios meios, antes mesmo de atingir a plenitude física de seu desenvolvimento”, como declarava o texto publicado sobre o evento no Boletim do Museu de Arte Moderna, em janeiro de 1958.
A inauguração contou com a presença de diversas autoridades políticas, entre elas o Presidente da República, Juscelino Kubitschek; o Ministro da Educação, Clóvis Salgado; e o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Negrão de Lima; além de Embaixadores brasileiros e de personalidades estrangeiras, como o Embaixador da Grã-Bretanha, Sir Geoffrey Harrison; e o presidente do Museu de Arte Moderna de Nova York, William Burden. O comparecimento do público também foi maciço: as imagens de época revelam que uma multidão se aglomerava no andar térreo e na rampa que dava acesso à sala do andar superior, onde se encontrava a mostra de artistas britânicos.
Esse conjunto de trabalhos, ou parte dele, seguiu para diferentes capitais da América do Sul após sua apresentação no MAM Rio, que ocorreu nos meses de janeiro e fevereiro de 1958. Em Buenos Aires, em função de acordos realizados com Jorge Romero Brest, então diretor do Museu Nacional de Belas Artes, a exposição é apresentada integralmente nos meses de abril e maio de 1958. Em seguida, a parte referente aos escultores britânicos segue para Montevidéu (Museu de Arte Moderna, julho-agosto 1958), Santiago (Instituto de Artes Plásticas, outubro-novembro 1958), Lima (Instituto de Arte Contemporânea (janeiro-fevereiro 1959) e Caracas (Museu de Belas Artes, maio de 1959).
Segundo Margaret Garlake, autora de importante estudo sobre a Grã-Bretanha e a Bienal de São Paulo (“The British Council and the São Paulo Bienal”. In: Britain and the São Paulo Biennial: 1951-1991. Londres, The British Council, 1991), em Montevidéu, a mostra inaugura um novo museu; em Lima, foi saudada como a maior exposição de escultura estrangeira jamais vista de obras dos mais destacados jovens artistas britânicos; em Caracas, o museu local adquiriu três esculturas de Armitage e recebeu, como doação da comunidade britânica, Curved Form in Reaction, n. 2, de autoria de Robert Adams.
Para essa itinerância, o British Council produziu catálogo em cores, em três línguas: inglês, espanhol e português, com várias ilustrações, texto de apresentação de Herbert Read (o mesmo que constava do catálogo da IV Bienal de São Paulo) e minibiografia dos artistas. O catálogo demonstra a preocupação do órgão com o impacto de suas ações no exterior, bem como seu empenho na execução de uma política de exibição e de circulação de obras de arte produzidas por artistas britânicos pelo mundo.
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No imediato pós-Segunda Guerra, a França lançou um programa de bolsas voltado a intelectuais e estudantes latino-americanos em um contexto de disputa por influência cultural com os Estados Unidos. Que impactos essa iniciativa teve na formação artística e intelectual brasileira?
Este foi um tema que eu estudei brevemente durante meu doutorado, a partir de documentos oficiais encontrados nos arquivos do Ministério das Relações Exteriores da França e que pretendo aprofundar nessa segunda etapa do Projeto Temático. Antonio Bandeira partiu para a França em 1946 com uma bolsa de estudos do ministério francês. Junto com ele, viajaram o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, o médico Oswaldo Aguiar, o historiador da arte e funcionário do Museu Nacional de Belas Artes, Mário Barata, e o escultor José Pedrosa. A situação econômica da França era bastante precária e o lançamento desse programa de bolsas, para atrair estudantes do exterior, demonstra a preocupação do governo em manter sua influência na América Latina. Mário Barata, em entrevista a mim concedida (1996), comentou que “a França estava paupérrima, a gente chegava lá não podia nem comer, nem tomar uma xícara de leite, nem nada. Ainda não tinha completado um ano do pós-guerra, nós chegamos meses depois do pós-guerra e tudo era ainda controlado, racionado”. Tratava-se de buscar restaurar a supremacia cultural da França no mundo e de manter o país como um eixo cultural de poder.
Um outro exemplo da vigorosa política cultural e científica empreendida pela França na América Latina durante o século XX foi o acolhimento, em São Paulo, de uma “missão francesa”, composta por pesquisadores contratados com o intuito de inaugurar as atividades docentes na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade de São Paulo (USP), criada em 1934, atual FFLCH.

Aspecto da exposição Acervo e 1ª Bienal de São Paulo, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 1952. Foto: Autor não identificado. Acervo: Pesquisa e documentação MAM Rio.
Atuação do British Council na América Latina
A atuação do British Council na América Latina teve em Lilian Somerville uma figura de destaque. Como avalia a importância do trabalho desenvolvido por ela e de que forma sua atuação influenciou o circuito artístico brasileiro?
Lilian Somerville foi diretora do Departamento de Artes Visuais do British Council de 1948 a 1970 e sua atuação foi decisiva para a difusão da arte britânica no exterior durante esses anos, bem como para a formação da coleção de artes do British Council. Somerville se tornou a força motriz por trás da representação britânica nas grandes mostras de arte internacionais, como a Bienal de São Paulo, por exemplo. Ademais, ela foi uma das poucas mulheres do período a ser comissária (principal ou assistente) e membro do júri das bienais internacionais de arte, em um circuito eminentemente masculino.
No caso da Bienal de São Paulo, ela foi comissária da representação da Grã-Bretanha em quatro edições do evento (1955, 1963, 1965 e 1969), além de ter integrado o júri de premiação em 1963 e 1965. Veio ao Brasil seis vezes, segundo seu próprio depoimento. Em 1958, como reconhecimento dos serviços prestados à monarquia britânica, Somerville recebeu a Ordem do Império Britânico (OBE, Officer of the Most Excellent Order of the British Empire), e, em 1971, por ocasião de sua aposentadoria do British Council, recebeu a Ordem de São Miguel e de São Jorge (CMG, The Most Distinguished Order of St Michael and St George), destinada às pessoas que realizaram contribuições proeminentes ao Reino Unido, no exterior e em assuntos internacionais.
Somerville empenhou-se em consolidar os interesses do British Council na cena artística internacional, e, até onde pude pesquisar, não se interessou em interagir fortemente com o meio local nas suas passagens pelo Brasil, que tiveram início em 1959, quando ela supervisionou a montagem da sala de Barbara Hepworth na V Bienal de São Paulo. Em uma entrevista ao crítico de arte Charles Spencer, ela afirma ter “certeza de que [era] detestada em muitos círculos”. Mas a tarefa do British Council não [era] ser “justo” – o seu papel [era] aumentar o prestígio da Grã-Bretanha através das artes”. Ou seja, ela atuava como uma funcionária do governo britânico e defendia seus interesses.
Seu papel na formação de um cânone específico da arte moderna britânica e em sua promoção internacional ainda carece de maiores estudos e tenho intenção de desenvolver mais esse tópico em minha pesquisa.

Vista da exposição Ben Nicholson e escultores britânicos, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 1958. Foto: Aertsens Michel. Acervo: Pesquisa e documentação MAM Rio.
Durante o desenvolvimento da pesquisa, houve algum documento ou descoberta que a tenha levado a rever hipóteses ou a enxergar esse tema sob uma nova perspectiva?
Entre dezembro de 2025 e março de 2026, realizei um novo estágio de pesquisa em Londres com bolsa Fapesp. Dessa vez, a intenção era encontrar documentação sobre as mostras de arte coletivas e individuais que foram organizadas pelo British Council e viajaram para a América do Sul. No Tate Archive, tive acesso ao fundo Lilian Somerville Papers e também consultei a correspondência de Barbara Hepworth, Ben Nicholson e Prunella Clough – artistas que obtiveram prêmios na Bienal de São Paulo – e várias pastas sobre a participação da Grã-Bretanha na Bienal de Veneza e sobre mostras circulantes organizadas pelo British Council.
Os documentos do fundo Lilian Somerville compreendem correspondências de caráter profissional, mas também pessoal, ofícios e memorandos por ela enviados para colegas de trabalho e representantes do British Council no mundo, além de numerosas fotografias e recortes de jornal. Os bastidores das premiações obtidas nas bienais de arte, assunto igualmente importante para minha pesquisa, foram tema de alguns dos documentos que encontrei no Tate Archive, como, por exemplo, uma carta do crítico e historiador britânico Herbert Read, datada de 15 dezembro de 1953, a Somerville, na qual ele comenta sua participação como membro do júri da 2ª Bienal de São Paulo.
Somerville secretariava as reuniões do Comitê Consultivo que assessorava o Departamento de Artes Visuais do British Council, que ocorriam a cada três/quatro meses, e consultei as atas dessas reuniões no The National Archives. Elas eram acompanhadas por “Report on Progress”, extensos relatórios sobre as exposições organizadas pelo Departamento de Artes Visuais nos mais diversos países, várias das quais itinerantes, com análises sobre sua repercussão local e regional baseadas em artigos de imprensa e comentários qualificados. A partir desses relatórios, os membros do Comitê decidiam sobre as próximas atividades a serem organizadas ou apoiadas.
A importância das ações do British Council para a promoção da arte britânica no exterior era constantemente assinalada nessas reuniões, mas é preciso mencionar que o British Council sofria ataques constantes, dentro e fora do governo, e que muitas vezes resultaram no estabelecimento de Comissões de Inquérito. Questionava-se constantemente, interna e externamente, a utilidade política de se promover a cultura britânica no exterior, menosprezando seu ganho de capital simbólico. Ademais, o orçamento destinado às artes em geral (artes visuais, música, artes cênicas, cinema) era mínimo, já que a maior parte dos recursos financeiros do British Council era voltado a ações educativas, de ensino do inglês, que eram realizadas com apoio dos Institutos e Sociedades locais de Ensino da Língua Inglesa (a Cultura Inglesa no Brasil) e se transformavam em fonte imediata de receita.
Por meio da análise desses documentos, pude melhor dimensionar as atividades do British Council, sua estrutura mutante, e as reações internas e externas ao órgão a partir da consulta a diversos documentos.
Presente e Futuro
Ao estudar como França e Reino Unido utilizaram a cultura como instrumento de política internacional no pós-guerra, seria possível traçar paralelos com o cenário contemporâneo? A arte continua desempenhando um papel estratégico nas relações entre os países?
A situação política se modificou muito desde a queda do muro de Berlim e a derrocada da União Soviética. A diplomacia cultural e as ações no campo do soft power ainda têm sua importância nos dias atuais, mas de modo mais diluído, especialmente no cenário contemporâneo, em que vemos o desmantelamento de uma série de instituições transnacionais criadas no pós-guerra e a aplicação de políticas econômicas de caráter intimidatório. Governos de extrema-direita, em diferentes regiões do mundo, por sua vez, se servem da arte como mote para veicular valores morais conservadores. Ou seja, vejo situações distintas, e não consigo traçar paralelos entre esses dois momentos.
Um projeto dessa dimensão reúne uma ampla rede de pesquisadores e instituições. Como tem sido o desafio de coordenar uma pesquisa dessa escala e quais são os próximos passos do trabalho?
Em primeiro lugar, devo mencionar que nosso projeto teve início em 2022, quando submetemos o projeto “Conexões internacionais e a formação de redes locais: as exposições circulantes no MAM Rio (1948-1978)” para uma chamada do Edital Universal do CNPq e fomos contemplados. Nesse momento, nosso enfoque se voltava para as mostras internacionais de artes visuais que foram apresentadas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) no recorte temporal indicado, que compreende a instauração das primeiras instituições artísticas voltadas à difusão de um vocabulário moderno no Brasil e a crise resultante do incêndio do museu carioca, em 1978. Buscamos examinar as dimensões políticas e ideológicas subjacentes às exposições selecionadas e compreender suas articulações em seus países e instituições de origem, bem como os contatos diplomáticos estabelecidos para sua circulação no exterior. Realizamos dois encontros acadêmicos, abertos à participação de pesquisadores, na Universidade Federal do Espírito Santo (2023) e no Paço das Artes, no Rio de Janeiro (2024), organizados por membros da equipe. Publicamos os anais desses eventos, além de um livro que reúne os resultados de nossa pesquisa, “Exposições e conexões internacionais no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1948-1978)”, que possui uma versão em inglês disponível para download em nosso site (https://geopoliticasinstitucionais.com.br/).
Boa parte dessa equipe participou da elaboração do Projeto Temático para a Fapesp, que tem um escopo mais amplo e foi aprovado no final de 2023. O Projeto congrega pesquisadores de diferentes universidades do Brasil e do exterior e busca compreender as conexões entre as instituições brasileiras e os museus e órgãos oficiais estrangeiros e a formação de redes no continente sul-americano que se estabeleceram a partir desses eventos. Entre os materiais essenciais para o Projeto Temático estão catálogos de exposições, fotografias das obras e das mostras, folders, correspondências diplomáticas, relatórios técnicos, cartas, ofícios, telegramas, documentos oficiais de instituições privadas e governamentais, fichas técnicas sobre montagens, apólices de seguro de obras de arte, avaliações dos eventos, registros de conferências, publicações etc.
Trata-se de uma equipe experiente, mesmo que estejamos em momentos diferentes de nossa trajetória acadêmica, alguns com mais anos na docência do que outros. Mas é esse mix de experiências, vivências e interesses que faz com que a pesquisa avance de modo consistente. Realizamos reuniões regularmente, com toda a equipe de pesquisadores, para discutir nossas atividades em conjunto, buscando realizá-las de modo integrado, sem disputas desnecessárias de poder.
E quero destacar também o apoio que obtive da direção do Instituto de Artes da Unicamp, que é a instituição-sede do Projeto Temático. Por designação do diretor do Instituto, contamos com uma funcionária (Karin Fantana Pimentel) que me auxilia no gerenciamento dos recursos da Fapesp e na prestação de contas anual. Sem o apoio de Karin, nossas tarefas seriam bem mais árduas e deixo aqui registrado meus agradecimentos a ela.
A Fapesp nos concedeu bolsas para pesquisas de iniciação acadêmica e de pós-doutorado, expandindo assim nossa equipe. Além disso, obtivemos bolsas de Treinamento Técnico (TT-4 e TT-5) para coleta e análise de material documental sobre o tema e para a criação de um banco de dados que reunisse os documentos coletados. Recentemente, solicitamos uma bolsa de Jornalismo Científico (JC2), que nos foi concedida.
Contar com o apoio da Fapesp para desenvolver uma pesquisa dessa magnitude na área de artes visuais é um privilégio. Coordenar a equipe é uma grande responsabilidade, que agora está, temporariamente, em minhas mãos. Só tenho a agradecer pelo voto de confiança em mim depositado e pela colaboração de todos.
Em termos de ações em andamento, quero assinalar uma iniciativa muito estimulante, que é o nosso Curso de Extensão on-line, coordenado pelos professores Emerson Dionisio de Oliveira, da UnB, e Michiko Okano, da Unifesp. Trata-se do Seminário Aberto “Geopolíticas Institucionais: arte em disputa nas mostras internacionais circulantes no Brasil (1948-1978)”, que está no ar desde março de 2026, e ocorre quinzenalmente com a participação de todos os membros da equipe. E estamos em vias de preparação de nosso Seminário Internacional, que será realizado em São Paulo em 2027, com chamada pública para comunicadores do Brasil e do exterior.